Do novo Mercado de Peixes às muretas originais, uma rota plana de 6 quilômetros para redescobrir a estética urbana da ponta leste.
Quando se fala em pedalar por Santos, 90% das pessoas apontam o guidão automaticamente para o José Menino e vão disputar metro quadrado com skates, patins e carrinhos de bebê no Emissário Submarino. É um ótimo passeio, mas é o equivalente urbano a ir à Disney e ficar o dia inteiro na fila do carrossel.
A verdadeira “fina estampa” de Santos mora na ponta leste.
A Ponta da Praia passou pela maior reconfiguração de espaço público da história recente da cidade. Galpões abandonados viraram totens de vidro; calçadas estreitas viraram esplanadas. Só que tentar absorver essa estética de dentro de um Uber trancado no trânsito de domingo às cinco da tarde é um desperdício.
Calibre os pneus (60 PSI se for pneu fino, 40 se for de mountain bike). Desenhamos uma rota linear de 6 quilômetros, 100% plana, para ser feita num sábado pontualmente às 16h15. O objetivo aqui não é queimar calorias; é fazer contemplação urbana.
Ponto 1: A Largada no Novo Mercado de Peixes (Praça Gago Coutinho)
- A estética: Esqueça aquela imagem de mercado de peixe com chão encharcado, azulejo quebrado e cheiro de amônia. O novo prédio parece uma estação de trem de Roterdã ou Copenhague. Uma estrutura envidraçada de pé-direito monumental abraçada por vigas diagonais de madeira laminada.
- O ritual: Não entre para comprar camarão agora (a menos que você tenha um alforge térmico na bike). Apenas encoste a bicicleta no paraciclo, sente nos degraus de concreto da praça e repare no contraste: a arquitetura arrojada de 2020 de um lado, e os barquinhos azuis de madeira de 1970 atracados no canal bem em frente. Tome o primeiro gole de água. Ajuste o capacete.
Ponto 2: O Túnel de Lona do Centro de Convenções (Blue Med)
- A estética: Quatrocentos metros à frente, você passa por baixo da nova esplanada do Centro de Convenções.
- O detalhe visual: Em vez de pedalar pela ciclovia colada aos carros, pegue o corredor de concreto batido que passa por dentro da praça coberta. Olhe para cima. O teto é uma gigantesca membrana tensionada branca. Quando o sol das quatro e meia bate no topo da lona, a luz aqui dentro se difunde e vira um branco leitoso, absolutamente limpo. Dá a sensação nítida de estar pedalando por dentro de uma instalação de arte contemporânea.
Ponto 3: A Curva dos Clubes Náuticos (Av. Saldanha da Gama)
- A estética: O Modernismo Caiçara Brutalista dos anos 50 e 60.
- O detalhe visual: Este é o trecho “Riviera” de Santos. Você vai passar pelo Clube Internacional de Regatas, pelo Vasco da Gama e pelo Saldanha. Repare nas estacas de concreto armado cravadas no leito do mar que sustentam esses ginásios suspensos sobre a água. Olhe para a tipografia do letreiro em neon do “VASCO DA GAMA” — aquilo é design gráfico de meados do século XX preservado de forma impecável.
- A brisa: É aqui que o vento muda. O cheiro de “praia” some e entra o cheiro de “estuário” (a mistura do sal do mar com a matéria orgânica do manguezal). Você começa a escutar o barulho rítmico dos cabos de aço batendo nos mastros de alumínio dos veleiros.
Ponto 4: A Mureta “Raiz” (Deck do Pescador)
- A estética: Uma passarela de concreto que se lança 70 metros para dentro do canal de navegação.
- O momento caiçara: Desmonte da bicicleta. Encoste o quadro em uma das muretas originais (aquelas que não foram pintadas com tinta acrílica barata e ainda mostram as pedrinhas do agregado exposto). Olhe para o outro lado da margem: a Fortaleza da Barra Grande, no Guarujá, construída em 1584. Se você deu sorte com o relógio, um navio porta-contêineres de 330 metros da Maersk vai passar tão perto de você que dá para sentir a vibração grave dos motores a diesel reverberando no guidão da sua bicicleta.
Ponto 5: A Chegada no Museu de Pesca (A “Hogwarts” Caiçara)
- A estética: Ecletismo Neoclássico de 1908.
- O fecho: A rota termina exatamente no ponto em que o canal faz a curva e vira “praia aberta” de novo. O casarão do Museu de Pesca, com seus tijolos aparentes e torreões de ardósia, parece uma mansão vitoriana inglesa que foi despachada por engano para os trópicos.
- A recompensa: Trave a bicicleta no posto 6. Atravesse a rua até o quiosque amarelo. Peça um caldo de cana com limão (ou uma água de coco gelada, se a sua religião proibir açúcar à tarde). Sente na mureta. Olhe para trás e veja a linha reta de concreto, ferro e água que você acabou de traçar.
Santos é uma tela plana
Cidades montanhosas nos obrigam a pedalar olhando para o chão, controlando a respiração e rezando para a subida acabar. Santos nos deu o privilégio geográfico de pedalar de cabeça erguida. Use a ciclovia para enxergar a cidade que os motoristas apressados deixaram de ver.
E para você: qual é a trilha sonora obrigatória (tocando em um fone só, por segurança) para quando se passa rasgando pela Ponta da Praia no fim da tarde? Deixe nos comentários.
